Por que artistas estão vendendo os direitos dos seus catálogos musicais?

Editorial Mubu, dinheiro e vinil
Editorial Mubu, dinheiro e vinil

Na indústria musical, os direitos autorais desempenham um papel fundamental na valorização das obras.

No entanto, você já se perguntou por que alguns artistas escolhem vendê-los? Neste artigo, exploraremos os motivos por trás dessa decisão e como ela pode beneficiar tanto os artistas quanto as empresas de investimento.

Nos últimos anos, um fenômeno interessante tem tomado conta da indústria da música: artistas renomados como Justin Bieber, Calvin Harris, Bob Dylan, Shakira e Justin Timberlake têm vendido os direitos de seus catálogos musicais por milhões de dólares.

Um exemplo notável é o caso de Justin Bieber, o cantor por trás de sucessos como “Baby”, “What Do You Mean” e “Sorry”, que vendeu seu catálogo completo para o fundo de investimento privado chamado Hipgnosis Song Management.

Canção de Justin Bieber com mais de 3 bilhões de views, que fez parte da negociação.

Esses fundos de investimento privados adquirem participações em empresas não listadas na bolsa de valores. No caso de Bieber, a venda do catálogo rendeu cerca de 200 milhões de dólares, equivalente a quase 1 bilhão de reais.

Outros artistas seguiram a onda

Ao adquirir o catálogo de Bieber, a empresa passa a deter os direitos de publicação das músicas. O valor da aquisição reflete o imenso sucesso do artista, que conta com mais de 72 milhões de ouvintes mensais no Spotify e quase 10 bilhões de reproduções em suas cinco músicas mais populares. É importante ressaltar que os valores exatos das transações não são confirmados oficialmente.

Além de Bieber, outros artistas renomados também decidiram vender seus catálogos musicais, incluindo Calvin Harris, Bob Dylan, Tina Turner, Shakira, Justin Timberlake e até mesmo a banda Red Hot Chili Peppers. Tradicionalmente, as vendas de catálogos costumavam atrair artistas no final de suas carreiras, que buscavam lucrar com seu legado musical consolidado.

No entanto, a decisão de Bieber de vender seu catálogo aos 29 anos surpreendeu a indústria, uma vez que o cantor foi descoberto no YouTube aos 13 anos e acumula 16 anos de carreira. Ele se tornou o artista mais jovem até o momento a vender seu catálogo, superando Justin Timberlake, que anteriormente detinha esse título aos 41 anos.

Entenda Sobre Direitos Autorais

O valor de uma música é dividido em dois tipos de direitos: direitos autorais e direitos conexos. Os direitos conexos referem-se à gravação e materialização de uma composição, geralmente pertencentes a uma gravadora. A gravadora é a proprietária da gravação, também conhecida como master.

Já os direitos autorais dizem respeito à própria composição, à ideia por trás da música, como a letra, melodia e/ou ritmo. O conjunto dessas obras de um determinado artista ou compositor é chamado de catálogo, que normalmente é gerenciado por uma editora convencional, uma empresa do mesmo grupo das grandes gravadoras.

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Material explicativo disponibilizado pela associação UBC – União Brasileira de Compositores.

Ao contrário dos direitos conexos, os direitos autorais têm um prazo estabelecido. Após o término do contrato, o artista ganha uma poderosa ferramenta de alavancagem financeira, abrindo novas possibilidades de negociação para seu catálogo musical.

Toda vez que uma música é reproduzida em plataformas como Spotify ou YouTube, em shows, programas de televisão, séries, filmes ou comerciais, os artistas e gravadoras são remunerados por isso. É por esse motivo que empresas e fundos de investimento, como Hipgnosis e Primary Wave Music, estão entrando agressivamente no setor editorial, pois percebem um grande valor na gestão e propriedade dos direitos de publicação desses catálogos.

Essas empresas estão realizando acordos multimilionários, focando especialmente nos direitos autorais. Isso evidencia a importância e o potencial financeiro desses ativos.

Quem ganha com isso?

Os principais motivos para a venda dos direitos autorais é o tempo e conveniência. Para muitos artistas mundialmente conhecidos, apesar do sucesso e do reconhecimento, a geração de lucros significativos pode ser um desafio. A indústria musical é complexa e altamente competitiva, e anos de trabalho árduo nem sempre se traduzem em retornos financeiros substanciais. Ao venderem seus catálogos, esses artistas recebem um pagamento único e considerável, que pode ser utilizado para diversas finalidades, como aposentadoria, investimentos ou até mesmo eliminar dívidas.

Outro motivo comum para a venda dos direitos autorais é a perspectiva de artistas aposentados ou em final de carreira. Muitos deles preferem receber um pagamento adiantado do que deixar o catálogo para seus familiares lidarem com a administração complexa e exigente. Ao venderem os direitos, eles evitam questões familiares e garantem que o valor seja dividido de forma justa e harmoniosa.

Quais são os principais benefícios?

Essas transações também beneficiam as empresas de investimento. Ao adquirirem catálogos musicais, elas têm a paciência e o tempo necessários para esperar pelos retornos a longo prazo. Mesmo que o valor de venda seja abaixo do estimado, as empresas enxergam a estabilidade e o potencial de crescimento contínuo que a propriedade editorial proporciona.

A revolução digital e o surgimento dos serviços de streaming transformaram radicalmente a forma como consumimos música. A posse física de álbuns e CDs tornou-se obsoleta para as gerações mais jovens. Esse cenário impulsionou o crescimento das editoras musicais, que arrecadaram bilhões de dólares em receitas nos últimos anos. Esses números expressivos chamaram a atenção dos investidores de Wall Street, que perceberam a música como um ativo valioso e estável.

No entanto, é importante ponderar sobre quem realmente se beneficia nesse cenário. Embora no momento tanto os artistas quanto as empresas de investimento pareçam ganhar com essas transações, o equilíbrio pode mudar no futuro. É possível que as empresas percebam o valor exorbitante desses ativos, enquanto os artistas possam acabar perdendo em longo prazo. Infelizmente, essa não seria a primeira vez que a indústria musical se aproveitaria do talento dos artistas.

A venda dos direitos autorais oferece aos artistas acordos financeiros que garantem riqueza ao longo de gerações. O impacto dessas transações na história da música ainda está por ser totalmente compreendido, mas é inegável que elas desempenharão um papel importante nos próximos anos. Ficaremos atentos a essa nova configuração e às implicações que ela trará para os artistas e a indústria como um todo.